Sarah

A última adolescência

Eu acordei pensando em você mesmo quando meu noivo resolveu chegar às três e meia da madrugada depois da festa da firma. Obrigada por aliviar o meu traço tóxico e evitar uma briga pela manhã.

Eu também acordei fazendo conta. E cheguei à conclusão de que eu te conheci quando você ainda tinha 17 anos. Quem entra na faculdade aos 17? Mas cá estamos em dezembro, então faz total sentido para uma adolescente prodígio como você.

A gente se conheceu há tantos anos e, segundo um novo estudo, ainda somos adolescentes. Pena que o colágeno já não é o mesmo.

A partir de hoje, 30. Aproveite, pois esse é o último ano que você ainda pode fazer uma grande cagada e culpar os hormônios. Depois, só na menopausa. Se bem que você já está nos Estados Unidos da América… É, nada como encarar o início da vida adulta no nível hard. Se bem que, convenhamos, você já começou esse processo há muito tempo.

Crescemos juntas e choramos juntas. Dentro do carro, numa república, no meio do nada, no ombro uma da outra, à distância. Também rimos muito, às vezes por coisas que nem lembramos direito - mas na maioria delas, por simplesmente sermos viciadas em viver. 

E nessa, a gente sobreviveu a tanta coisa, que já dava pra escrever um manual de como ser delulu e ainda chegar viva. 

Você começando a pegar no volante. Ninguém confiando. Eu, sem noção nenhuma de direita e esquerda. Assim, a gente foi aprendendo. 

Até parece que sempre estivemos em uma competição para saber qual o máximo de horas conseguiríamos ficar numa estrada. Dentro de um ônibus duvidoso em Canudos. Em estradas mineiras de mão dupla - com caminhões. Carro na contramão quando estávamos prestes a nos formar. Estradas americanas que pareciam cenários de filmes onde o céu é o limite, trânsito infinito até Xangri-lá. 

Uma caminhada para ver o nascer do sol no Grand Canyon, quando o que eu mais me lembro nem é do sol, mas dos passos que demos, enquanto eu, reclamava, e você dizia: vai ficar tudo bem, amiga. 

Acho que só essa frase te faz ser a rainha do maior clichê mundial. Mas tem outro que eu queria parafrasear de algum sábio sem graça, que diz que a vida é menos sobre o destino e mais sobre como a gente se comporta nesse meio do caminho. 

Entre o GPS que perde o sinal, as lindas paisagens, nossas crises existenciais - profundamente relevantes, estranhos que guardamos os nomes, coisas que levamos conosco. Nessas entrelinhas, a gente se conecta, se diverte e, honestamente, consegue se entender melhor do que qualquer título de autoajuda.

O melhor disso tudo? A gente sempre chega. Sempre. Nem que seja com uma trilha sonora em looping e um humor rasgando o limite. De certo, em todas essas vezes, em todos esses meios, a gente também se perdeu. Às vezes para o medo, para a dor, para o cansaço. Ou simplesmente para que a gente se encontre, de novo e de novo.

Com 30, eu acho que essa perda tem que ser ainda mais intensa. Mais precisa. Com mais vontade e direcionamento. Essa é a única diferença. E aqui, eu até preciso usar seu nome como vocativo explícito. Laura, você normalmente não mede esforços para realizar as coisas, isso tudo mundo aqui sabe, mas se esforce pra peder um pouco mais. Perder tudo aquilo que, com 20 e poucos anos, você achou que não poderia deixar passar.

Curta suas conquistas e conte ao mundo. Permita-se ter medo de largar o que ficou pequeno. E largue. Porque encerrar a adolescência ainda é tacar o foda-se - sim, mas com um pouquinho mais de propósito econsciência. 

Eu desejo que você dê passos no escuro, tropece e faça o que o seu grande coração tiver vontade. Vai ter perrengue sim, sempre tem, mas no final, a gente sempre chega. Com outras histórias, habilidades, dons adormecidos. E, é claro, mais viagens que custam um rim, mas que nos fazem ser feliz no simples. 

No final, os 30 são só mais um lembrete de que tudo vai ficar bem.

Parabéns, amiga. Eu te amo.

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